14 de abr. de 2019


Um diálogo difícil
Artigo de Ivan Angelo publicado na revista semanal brasileira Veja em 16 de maio de 2001 (página 126):

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Diálogo difícil
Um homem do interior esbarra no jargão de uma secretária
Ivan Angelo
Se ultrapassar a barreira representada por uma secretária, quando se quer falar com um executivo ao telefone, já é um pouco complicado para urbanos acostumados, que dirá quando vem alguém de longe, aonde não chegaram ainda certos truques do linguajar sempre polido daquelas que recebem dos patrões a ingrata missão de afastar em vez de aproximar.
- Financeira Saraiva, boa-tarde - diz a secretária.
- Boa-tarde, moça. O doutor Saraiva está?
- Quem gostaria?
Para ouvidos traquejados isso significa: pode estar ou pode não estar, depende de quem está falando. O verbo gostar no condicional joga o acesso ao doutor no terreno das possibilidades. Mas as palavras têm um sentido mais amplo do que julga quem faz uso delas no sentido particular.
- Gostaria não é bem o causo. Eu vim mais por precisão do que por gosto.
A resposta não servia a ela, que estava interessada no "quem" da pergunta. Já o interlocutor prestara maior atenção no verbo porque, para ele, essa era a palavra que fazia mais sentido na circunstância. A secretária voltou à pergunta dando ênfase na busca da informação que desejava:
- Mas quem gostaria?
- Gostaria de quê?
Para fugir do impasse, a secretária resolveu usar a língua geral:
- O que estou perguntando é qual o seu nome. Quer dizer: quem gostaria de falar com ele.
Aí, para o homem do interior, já era quase uma questão. E ele tornou, muito polido, mas marcando opinião:
- Uai, mas, se eu perguntei primeiro se o doutor Saraiva está, a senhora tinha de me responder primeiro, antes de rebater com outra pergunta, não é não? Eu penso assim.
- Como é que vou encaminhar o senhor sem saber o seu nome?
- Posso até dar o nome, mas eu não disse que queria falar com ele. Só perguntei se ele estava...
A secretária, com a objetividade da profissão, tentou contornar:
- O senhor quer falar com ele?
- Gostaria - ironizou o homem.
- Bom, então, por favor, o senhor pode me dizer o seu nome?
- Posso. É João Honorato.
Aí veio outra pergunta fatal das secretárias:
- De onde?
Para quem conhece os códigos, a pergunta significa: de qual empresa é o senhor, qual é o seu negócio? Para quem não conhece:
- De onde? Ah, sou de um lugar muito pequeninozinho perto de Barbacena, a senhora nunca deve ter ouvido falar: Desterro do Melo. Ouviu falar?
- Não, não ouvi - e lá veio outra pergunta do repertório: - É particular, senhor?
- Aí a senhora me pegou. O Desterro? Particular?
- O assunto, senhor, é particular?
- Ah, bom. Por enquanto, é. Daqui a pouco tá na boca do povo.
- Pode adiantá-lo, senhor, para eu estar passando para o doutor Saraiva?
- Não, eu mesmo passo.
A secretária vencida e grilada contatou o patrão, que atendeu na maior presteza ao ouvir o nome de João Honorato. Foi uma conversa longa. Pela porta entreaberta ela ouviu duas risadas, apelos, promessas, regateios, garantias, agradecimentos. Depois o doutor Saraiva veio até ela:
- Dona Regina, o senhor João Honorato está vindo aí. Disse que teve dificuldade de entender a senhora. Pelo amor de Deus, fale simples com ele, como se ele fosse a sua mãezinha, o seu avozinho. De hoje em diante, por favor, não mais "quem gostaria?", "de onde?", "estar passando", "qual é o assunto". Ele acha que quem telefona sabe o que quer e com quem quer.
- Mas quem é esse João Honorato?
- O rei da soja. Agora é nosso patrão: vendi minha parte para ele nesse fim de semana.

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Eclesiastes 1:13

E apliquei o meu coração a esquadrinhar, e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; esta enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens, para nela os exercitar.