20 de nov de 2016

Turmas: 71 - 72 - 73 - Texto da prova do dia 25/11/2016 - "EU CONHECI PAPAI NOEL!"



Eu e meu Papai Noel
Várias imagens eu poderia guardar dos meus natais, nenhuma tão forte como a do meu Papai Noel, a construir os meus brinquedos durante os meses que antecediam a grande festa da cristandade.
Éramos tão pobres que a festa, como é comemorada nos dias atuais, praticamente não existia. Nossa casa de taipa, de porta e janela, nesta mesma Rua Marquês de Maricá, era desprovida de todo e qualquer enfeite natalino.
Nada de árvores, com bolas coloridas e capuchos de algodão a imitar neve (!)… Nada de pinheirinhos, de luzes piscando, de arranjos de flores secas, sininhos e anjinhos barrocos… Nada de ceias, vinhos, presuntos, castanhas, frutas cristalizadas, “queijos-do-reino”, pastéis, nozes, amêndoas, chocolates ou outras iguarias da época. Nada de sapatinhos nos pés da cama e outros sonhos infantis, mas tão-somente a doce realidade de um “Papai Noel” de verdade, com seus cabelos brancos e sua tez bronzeada pelo sol do cais do porto, com os seus óculos de aros grossos a esconder uns olhos verdes e ternos, procurando dar os últimos retoques num brinquedo de madeira que ele houvera construído com as suas próprias mãos na tosca oficina do fundo do quintal.
Nos braços da minha mãe
Meus natais, Mariana, eram bem diferentes dos teus. Meus natais eram desprovidos de luzes coloridas, de sons de harpas, repicar de sinos, fogos multicoloridos e novidades eletrônicas, dessas que hoje ornamentam os centros comerciais da cidade.
Nos meus natais não existiam esses apelos da mídia televisada, mas tão-somente aquela valsinha transmitida pelo rádio da sala:
Feliz Natal,
Feliz Ano Novo
São os votos 
de Coca-Cola!
Chegavam pelo correio alguns poucos, porém sinceros, cartões natalinos desejando boas festas. Minha mãe, com a sua invejável caligrafia de professora primária, respondia um a um com uma cartinha postada em envelopes comuns. No mais eram as visitas de gente simples, como nós, a desejar:
– Feliz Natal, dona Ilídia!
– Feliz Natal, seu Tonico!
A noite do Natal só era diferente, com relação às outras, na hora do deitar. Numa rua bucólica sem iluminação, nem muito menos calçamento e trânsito de veículos, nós podíamos brincar até meia hora antes da missa do galo, invariavelmente celebrada em frente à matriz da Torre; ainda conservando na sua fachada as lâmpadas da festa de Santa Luzia.
Os adultos colocavam suas cadeiras nas calçadas e lá ficavam a conversar sobre estórias passadas em outros natais, à espera que o sino da igreja começasse a chamar para a missa.
As crianças soltas de pés descalços brincavam de roda, de pega, de garrafão, barra-bandeira, boca-de-forno, ou simplesmente jogavam botão aproveitando a iluminação da frente das casas.
Vez por outra, dependendo da boa vontade dos adultos ou da animação da noite, nos levavam ao Sítio dos Valença, na Madalena, onde João e Raul Valença haviam montado o seu tradicional presépio… Havia também os pastoris, como o do SESI da Torre, com jornadas animadas e belas pastoras do encarnado e do azul.
Presente a tudo, Mariana, estava o meu “Papai Noel”, orgulhoso com o brinquedo que houvera confeccionado para seu filhinho, a levar-me pela mão às casas de alguns amigos e parentes. Nelas, sim, eu me fartava de doces e guloseimas bem próprias da época…
Que saudade dos pastéis de minha tia Nazareth…
O tempo passava e eu crescia com ele; daí não precisar das mãos seguras de Tonico – o meu “Papai Noel” – para adentrar-me em novos lares. Outras mesas, repletas de iguarias, estavam a minha espera nas casas de Joaquim Costa e Carminha Barreto Campello, das quais ainda hoje relembro com saudade.
Muitos natais se passaram Mariana…
Os cabelos brancos tomam conta de minha cabeça, o coração está sempre ameaçando a fazer sua parada derradeira; mais pareço com o “Papai Noel” da minha infância… A angústia existencial vem povoar minha solidão, nos meus pensamentos sonho com aqueles longínquos natais… Um tempo que se foi no qual, apesar da pobreza, eu era feliz e não sabia…
Mais do que nunca, é preciso sonhar Mariana! 

Eclesiastes 1:13

E apliquei o meu coração a esquadrinhar, e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; esta enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens, para nela os exercitar.